Manifesto Orelha Quadrada (1° Festival Primavera do Rock )
Olá amigos de guitarra, Baixo bateria, mala, cuia, ou mp3 no ouvido. Esse mês gostaria de falar de meu assunto favorito, a boa música (e da má também, dependendo da ocasião). Sábado passado tive o grande prazer de participar do ótimo 1° Festival Primavera do Rock em Itatiba, cidade onde resido. E confesso que senti após o festival um misto de entusiasmo e melancolia , como se uma ressaca do dia seguinte tomasse conta de mim. Estes sentimentos surgiram ao mesmo tempo tanto por ver a repercussão que esse festival teve em toda a região e ver como a música mexe com as pessoas unindo as mais variadas “tribos” além de trazer vida às garagens e quartinhos dos fundos ocupados por uma garotada ansiosa por um palco, além da felicidade de saber que há pessoas inteligentes e bem intencionadas interessadas em agitar o cenário Rock and Roll da cidade, assim como há também a má vontade de outros em divulgar tal evento ou mesmo de participar de maneira produtiva, algo que eu chamaria de falta de cidadania roqueira. Bandas que poderiam melhorar o nível do festival e mostrar o melhor que as bandas itatibenses podem oferecer, simplesmente não participaram, seja por alegar falta de informação, como se isso fosse possível de acontecer numa cidade do interior onde o "boca a boca" se faz como maior fonte de informações, seja por se acharem competentes ou incompetentes demais para encarar um público que pode dizer que você não é bom o bastante, ao contrário do público da balada em as respectivas bandas toquem. Mas o ponto é: onde estão as bandas que como o próprio Rock and Roll prega “não deixam as pedras criarem limo”? Onde estão as bandas que agitam a galera até mesmo enquanto tocam “Wish You Were Here” do Pink Floyd? Ou ainda, onde estão as bandas capazes de criar uma cena musical na cidade? A resposta é simples e triste. Elas estão ainda escondidas, ou pior, talvez nem existam, pelo menos não em quantidade o suficiente para que essas andorinhas façam algum verão. A cidade ainda não tem uma banda que consiga criar um canal de comunicação com o público, às vezes nem mesmo uma banda que se comunique com o público (as bandas de Itatiba são famosas por fazerem shows com repertórios de 25 músicas uma seguida da outra sem sequer dizer um único olá, boa noite ou obrigado), uma banda com quem o público se identifique e que atraia as pessoas aos shows, além de é claro transmitir idéias ou conceitos musicais. A prova de que nossas bandas são ainda imaturas e que o rock itatibense está ainda em estado embrionário é o fato de que algumas das bandas que venceram o festival não convenceram no palco, além de outros fatores que gostaria de salientar nesse texto:1° - Falta de vontade e baixa produtividade e dos músicos tanto musicalmente quanto pessoalmente. Poucas bandas participaram com composições próprias e de qualidade. Não ficaria surpreso se alguma banda dissesse que compôs a música que tocou no festival na véspera do show. Música é cartão de visita e o principal de uma banda, mais ainda, é tudo que uma banda tem que ter. Por isso tem que ser trabalhada e sempre aperfeiçoada, presando sempre o que a banda entende por qualidade.
2° - O pouco compromisso, falta de ensaio e preparo para tocar no show. Não adianta ensaiar todos os dias só na última semana o festival. Química numa banda se cria aos poucos e com tempo não só de ensaio, mas de convivência. Há músicos que preferem um churrasco e cervejada a um ensaio. Eu também prefiro, mas cada coisa a seu tempo. hehehe
3° - Falta de investimento no sonho de ser músico e na própria capacidade de tocar. Isso se mostrou claro quando se leva em conta que haviam muito mais guitarristas, bateristas, baixistas e afins assistindo ao festival do que tocando no palco onde deveria ser o seu lugar. Ou você acha que quem estava só assistindo não estava loco pra estar lá em cima também?
4° - Desleixo e falta de estudo. Falta de pegar a guitarra em casa nem que seja pra tocar a velha introdução de “Come as you are”. Alguns músicos subiram no palco até com seus instrumentos desafinados (o maior pecado que uma banda pode cometer). Até os “Garotos Podres “ quando começaram precariamente sua banda tinham um baixo que possuía apenas uma corda, mas pelo menos essa corda estava afinada.
5° - O maior problema de todos. A famosa “orelha quadrada”, músicos que só escutam aquele tipo de som e acham que nada mais presta. A incompatibilidade de interesses e a mente fechada para os vários tipos de som é um problema tanto do músico quanto do público. Os músicos que não conseguem se unir em prol de um bem comum que é a música que a banda virá a produzir. Para esses falta entender que o que faz uma banda ter seu diferencial e ser criativa é a multiplicidade de influências e de pontos de vista. Já vi bandas se acabarem na cidade porque um integrante se veste diferente dos demais, ou porque curte um estilo de música diferente além do tocado pela banda. Lembremos que Kirk Hammett, guitarrista do Metallica, foi aluno de Joe Satriani, um guitarrista insano que viaja bastante em suas músicas, e que Cliff Burton, baixista do mesmo grupo, era fã de música clássica, e ainda assim o Metallica fazia nos primórdios um maravilhoso som trash e pesado a dar com pau. Enquanto isso o público parece só dar atenção aos músicos conhecidos na cidade, enquanto as bandas novas que deram a cara pra bater e que em alguns casos tinham até composições interessantes e engraçadas eram abandonadas pelo público que se afastava do palco por a banda não tocar o maravilhoso e veloz Heavy Metal que ansiavam ouvir. Esses fatores explicam a dificuldade de se formar uma banda na cidade.
6° Shows sem energia e músicos apáticos, como se não estivessem tocando pra ninguém. Das bandas que se apresentaram poucas se arriscaram a agitar as apresentações. A própria banda em que toquei não deu mais do que um grito de “Rock and Roll Porra!!” e mais nada. Algumas bandas preferem parecer espalhafatosas do que sinceras em demonstrar a que vieram ao mundo. Não quero dizer com isso que as bandas devam colocar fogo em seus respectivos instrumentos como Hendrix ou se jogarem no chão e começar a dar zerinhos como Angus Young, (se bem que seria o máximo... rsrs). Mas que pelo menos ensaiassem mais, se comunicassem com a platéia e decorem as letras das músicas abandonando a colinha e fazendo uma apresentação com cara de quem sabe o que está tocando e cantando.
Seria muito fácil dizer que na cidade não há músicos de qualidade ou que é difícil um moleque que toque de verdade. Os melhores instrumentistas que conheço na cidade ainda tocam dentro do próprio quarto e pelo andar da carruagem não tem pretensão de sair de lá tão cedo. E se fosse apenas por falta de bons músicos o Nirvana e o Ramones jamais teriam existido. Por enquanto, até as melhores bandas da cidade e do festival ainda precisam buscar suas respectivas personalidades e seu modo de “fazer” o Rock and Roll. Isso me faz pensar na célebre canção “Podres Poderes” de Caetano Veloso onde ele diz “Será que apenas os hermetismos pascoais e os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?” Questinoando que apenas o compositor Hermeto Pascoal conseguiu tirar a música do fundo do poço que se encontrava na falta de criatividade dos músicos de então. Sinceramente espero que a resposta seja não. E que haja sempre novos sons e novos loucos a nos embalar ao som da guitarra. Mas para isso temos que buscar o novo, produzir, mostrar o que há em cada banda que seduz e que faz a diferença nessa mesmice que se apresenta. Senhores, é hora das bandas de Itatiba pararem de correr atrás e começarem a chegar junto.
Mesmo assim, não nos desesperemos, não somos tão ruins ou incapazes de fazer o rock florescer nessa cidade. Os problemas que temos também ocorrem em outras cidades do interior ou até grandes centros. Além do mais, um sujeito de longas costeletas tocando guitarra com uma baqueta, saltando sobre a platéia e um Zé maluco berrando/cantando no festival parecem tentar dizer, ainda que solitários, que ainda há lenha pra queimar e pedras pra rolar. Do mais, é erguermos nossas guitarras, pois nas palavras do ACDC “It's A Long Way To The Top” (é um longo caminho até o topo) e para os que fazem Rock and Roll “We Salure You”!
Autor: Ismar Conrado Filho. Professor de História, Guitarrista, Porra-louca nas horas vagas, Vocalista da banda “Movediça” e acredita que o Maluco Ventania é o Inri Cristo que deu certo.


